CORRER MAIS


As pernas já não são tão rápidas quanto naquele tempo onde você atravessava
a cidade inteira em cima do carrinho, o peso hoje é muito maior do que a uns
dez ou nove anos atrás, a força para simplesmente sair do lugar é muito maior
sem contar o fôlego, metade daquele pique foi embora. Você vai ouvir:
– É a idade? Depois dos trinta só piora. Quem você pensa que é?
Seria muito fácil desistir e resolver virar para o lado e dormir reclamando da vida,
sendo tão chato quanto tantos outros que vivem deixando passar as maiores
oportunidades de serem felizes nas suas vidas. Uma alegria instântanea, rara,
porém verdadeira e muito compensadora. Não importam os resultados, você
melhor do que ninguém sabe ter feito o melhor de si, mesmo que isto não
tenha sido o suficiente. Vai ouvir um monte de ralhação dos amigos, da
família, das pessoas que te amam e só querem seu bem. Pensará mais
uma vez em largar de mão, tentar outra coisa ou fazer igual todo mundo,
abrir uma garrafa e sair contando vantagem.
Infelizmente não tenho nenhuma coisa feliz para te contar, nenhuma vitória,
ganho material raro ou proeza fascinante da noite passada. A maior parte
das pessoas também não têm isso, gostam de mentir e demonstrar algo
que não são. É mais fácil representar que ser autêntico, talvez até
medíocre, mas verdadeiro, porque não está inventando nada e nem
contando a história de ninguém.
Estas limitações que vem com o tempo, e não com a idade, só fazem, ou
pelo menos deviam, a gente desejar o melhor, mais, um tanto algo muito
diferente do que temos agora, não a mesmice do dia a dia. Conquistar
é uma tarefa diária. Começa na cama ao acordar e vai do trabalho até a
hora de dormir. O porteiro, cobrador, motorista, ascensorista, chefe,
estagiário, pipoqueiro, jornaleiro, desconhecidos e toda pessoa com
quem invariavelmente convive passa por este processo de conquista.
Você nota isso, o respeito ou carinho, no primeiro “bom dia” que faz ou
recebe.
Não, não estou falando de esporte, mas de persistência com todas
as coisas, a teimosia de não deixar seu corpo dizer quantos anos
você tem e o que você pode fazer. Que a sua cabeça pode muito
mais se você exigir um pouco de si mesmo. Talvez não ganhe tanto
dinheiro quanto esperava, nem more na melhor cidade do mundo ou
tenha todos os amigos por perto, mas o que faz de você da sua vida
é você mesmo, não um mundo insignificante que insiste e em te
dizer não, na maior parte do tempo.

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