OUTRA HISTÓRIA DO RODRIGÃO

Este é mais um pequeno fragmento de suas inúmeras histórias. Se quiser ler mais é só clicar no blog dele, que só não está extindo porque ainda está no ar. Espero que um dia ele volte a escrever novamente, porque pelo tempo que não publica nada, já devem ter se acumulado muitas histórias, verídicas ou oriundas da sua mente pervertida, ébria e feliz. Pode não ter acontecido em Copacabana, mas ilustra muito bem um dia qualquer neste bairro, onde bastou um grupo de amigos, muitas garrafas na mesa e uma conta que ninguém quer fechar.


A noite é uma criança

A noite é uma criança. Mas vá explicar isso para um garçon…

– Senhores, vamos fechar daqui a pouco…
– E aquela história de ficar aberto até o último cliente ir embora?
– Mas os senhores são a última mesa. E a penúltima foi embora há duas horas, junto com o cozinheiro.
– Já faz tanto tempo assim? Espera: o cozinheiro já foi?
– Já sim. Mas os senhores podem ficar à vontade.

Imagina a cena, caro leitor: cinco amigos, ligeiramente bêbados, às 4h da manhã, sentados num barzinho, daqueles que têm música ao vivo. Só eles no bar. Os garçons em volta da mesa falando sobre como era demorada a volta para a casa. Uma tentativa clara e mesquinha, há de concordar, de tentar convencer os amigos a ir embora.

Veja bem: os cinco naquele momento sagrado em que você encara cada copo vazio como uma pequena vitória e um daqueles caras de gravata borboleta dizendo “Ir pra Ramos agora? Tá louco…” com o outro respondendo “Isso não é nada, tenho que ir pra Queimados. Duas conduções e uma van. Chego lá no Faustão.”

– Como ficar à vontade com vocês secando a gente?
– Calma, Armando!
– Como calma, Tutuca?! Os caras estão expulsando a gente dessa espelunca!
– Tá! Então vamos embora dessa “espelunca” porque depois dessa vão cuspir no nosso chopp.
– Foi mal…
– Relaxa! Pra onde?
– Vamos pro Estupendo?
– Tá maluco? A porção de frango à passarinho de lá é safada pra cacete.
– Mas você quer comer frango à passarinho agora, Pimenta?
– Não. Mas prometi pra mim mesmo que não voltava lá. Que tal o Flor do Lodo?
– Ah! Acho que já fechou. Lá fecha cedo desde que a gente ficou cantando Saigon, 4h e tanto da manhã, em frente ao prédio vizinho praquela gostosona do primeiro andar, lembram?
– Putz! Mas esse não era o Saideira?
– Não! Saideira foi quando a gente queimou a toalha tentando fazer sinal de fumaça pra chamar o garçon!
– Pode crer. O Jarbas!
– Não, o Alcindo. O Jarbas é aquele careca emburrado do Encruado.

E eles ficaram algum tempo discutindo onde aquela noite terminaria. O bar perfeito pra saideira tinha que ter bom atendimento, ser perto dali, chopp gostoso, preço bom e, claro, caldinho de feijão com torresmo (nada de bacon!). Ah! E tudo isso às 4h da manhã.

O problema é que as opções iam surgindo e nada de chegar ao veredito. Até que o Binho, o caçula daquele grupo, levanta de sua cadeira, olha cada um nos olhos e dispara:

– Meus amigos! Em minha pequena, mas intensa experiência como pinguço, aprendi que na boemia, assim como no amor, não se pode escolher.

Todos se surpreenderam com o que o garoto estava dizendo. Logo ele, que sempre ficava calado nesses momentos. E continuou:

– É verdade, amigos! A coisa simplesmente acontece. Acho até, se me permitem, que em algum lugar desse mundo nasceu o bar que nos completa, o bar de nossas vidas. Nossa alma gêmea.

Nesse momento, até os garçons já tinham puxado uma cadeira para ouvir as sábias palavras do jovem boêmio.

– Procurar um bar só traz dor de cabeça. Ainda mais quando a cerveja é ruim. Procurar um bar é viver de aparência. Como aqueles caras que pegam a mulher porque é gostosona, ou as meninas que só sonham com os caras populares. Não, amigos! Isso é resumir uma relação de cumplicidade a uma mera análise de custo-benefício. Voto por não ter voto. Se alguém tiver que escolher, que seja o bar. Mas o que quero mesmo, o que desejo do fundo de minha alma, é que a gente se descubra… As opções que todos colocaram são ótimas. Mas temos de ser flechados pelo cupido da boemia. Porque é ele que deixará os dois dedinhos de colarinho tão irresistíveis que não nos restará outra coisa senão abrir um sorriso, inflar o peito, pedir outra rodada e começar essa nova história. Mas antes…

Todos se ajeitaram na cadeira para o grand finale.

– … eu preciso mijar urgentemente!

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