SOBRE TARANTINO E A CIDADE

A cidade faz o indivíduo ou o indivíduo produz a cidade? Sem querer cair na discussão sobre o sexo dos anjos, reformulo a questão: quem é o fabricante desta realidade conturbada, mesclada de signos diversos e fugaz que existe na atualidade? Atualidade? Esta perspectiva fragmentada já existe desde os fins do século XIX, com o advento da máquina pesada, a manufatura e a produção em larga escala.

Com o capitalismo o homem descobriu a veia fundamental do modo de vida que é até hoje a base de suas ações e pensamento. O homem do campo foi subjugado pelo fordismo. Ele se torna um instrumento das máquinas, vira uma ferramenta. Em Tempos Modernos, Chaplin coloca essa situação em cheque, demonstrando o quão patética é a condição humana. Antes dele veio Fritz Lang, com seu Metrópolis, antecipou essa condição de servidão. Maria, personagem do filme era a persona de ruptura no contexto. Num 1º momento ela foi a força que confortava os operários. Depois da sua transformação, ela se tornou o mecanismo de revolta, que incitou a multidão contra o sistema. A revolta contra o sistema é o tema recorrente na nossa sociedade.

Depois do fordismo veio a acumulação flexível dos bens. A indústria se torna mais exigente com seus membros (O HOMEM TEM QUE SE ADAPTAR À NOVA NATUREZA). A partir daí é possível se traçar um paralelo do progresso (?) mundial com a atual conjuntura. O processo de acumulação de valores cresceu numa proporção cada vez mais veloz nos últimos 20 anos, proporcionando nítidas conseqüências para toda a sociedade. O grande problema é que todos os seus membros são afetados, desde o mendigo desprovido de perspectivas até ao membro da classe A, ou até B, que tem que se fechar em seu condomínio fechado cheio de segurança contra o mundo que o cerca.

Parece que a cidade está se esvaziando. Na verdade não. Cada vez mais a cidade se notabiliza como o espaço dos conflitos humanos. Nela coexistem praticamente todos os paradigmas existentes. A poluição, a multidão, os carros, os prédios e os demais componentes da cidade são todos signos. Estes representam não apenas o aspecto físico de sua existência, mas também expressões do que o homem faz a si mesmo. Ele escolhe, se dita, suas próprias convenções destrutivas.

O mercado é mais veloz. É a descontinuidade presente no cotidiano. Discutir a sociedade significa discutir todo o complexo que gira em torno dela, desde as expressões artísticas até as disparidades econômicas. O cinema e a televisão são na sua essência a forma da sociedade falar de si mesma. Através dos veículos de comunicação de massa, os indivíduos se identificam ou se criam acordo com o que lhes é apresentado. Assim as pessoas se transformam naquilo que não são, ou assumem aquilo que realmente sempre foram. O poder dos veículos de comunicação é incrível. Os hábitos e modismos se perpetuam rapidamente, até serem substituídos por outros, outros e mais outros. (continua abaixo)

Que tipo de cinema ou televisão podem narrar a heterogeneidade de códigos em um mesmo grupo ou indivíduo? Para responder a tal pergunta seria muita pretensão resumi-la na simples análise de dois filmes, ou três. Isto não é o bastante para expressar todos os aspectos da cidade e seus signos. Contudo este é o espaço que me permite tentar expressar minhas conclusões. Este trabalho corre o risco de acabar se transformando numa resenha cinematográfica, contudo procurarei através destas conclusões amarrar a estética de cinema com a realidade (ou ficção) que o mesmo representa.

Pulp Fiction (Tempo de Violência) é um dos filmes a ser abordado nesta explanação. No decorrer deste trabalho outros filmes serão encaixados para acrescentar continuidade ao raciocínio proposto. Proponho colocar em específico Quentin Tarantino como objeto de estudo, não por apenas ser o roteirista, diretor, produtor e etc em voga, mas por ele compreender uma gama de informações em seus filmes muito rica e bastante abrangente.

Tarantino já chegou no seu ponto ótimo de aceitação em Hollywood. É cult, so cool. No entanto, antes de fazer John Travolta dançar twist e transformar Samuel L. Jackson em pastor, este cineasta criou e colaborou com outros bons filmes. Amor à queima roupa de Tony Scott, Cães de Aluguel e a co-produção com Oliver Stone, Natural Born Killers (Assassinos por Natureza) , que aliás é um dos mais fortes e entorpecidos filmes já concebidos pela indústria cinematográfica contemporânea . A saga de Mickey e Mallory é não apenas baseada em banhos de sangue gratuitos, mas uma discussão acerca dos valores morais e éticos de nossa sociedade moderna. À propósito, quem aí não gostaria, do fundo do coração, ser como Mickey ou Mallory? Se entregar da mesma forma que o apresentador do programa no filme? O pudor e a ética nos inibem a admitir tal desejo.

Podemos ainda citar as suas últimas produções em Desperado (A Balada do Pistoleiro) e From Disk Till Dawn (Um Drink no Inferno) de Robert Rodrigues. Estas em especial não vão ser muito tocadas por terem um caráter essencialmente de entreiterimento. Não que todos os outros filmes em que Tarantino participou ou produziu não os fosse, mas para exemplo deste trabalho os primeiros a serem citados são mais apropriados. Quentin Tarantino não está na verdade pregando nenhuma bandeira de “vamos pensar minha gente”, mas como cineasta que é está cumprindo seu papel de retratar a realidade sob um ponto de vista determinado. Assumir esta postura também repercute falar de anti-heróis mexicanos e vampiros assassinos, ou seja, falar de aspectos que acompanham o real, suas lendas, storys e outras. (continua abaixo)

Mas quem é esse tal de Quentin Tarantino? Ele é o subproduto desta sociedade. O embasamento cultural que adquiriu para criar suas tramas e escrever seus roteiros foi extraído da mesma fonte que todos nós bebemos. Seu grande mérito foi o de ter a capacidade, a sensibilidade, de captar tudo isso e transformar em realidade cinematográfica. Ele tornou mais óbvio esta questão, mesmo que sua intenção não fosse esta. Mas sem dúvida, acabamos por pensar ao assistir tais filmes.

“Pulp” ficou marcado no senso popular pela sua estrutura desconexa (?) , com início, meio e fim misturados. Ao ler o roteiro deste filme se percebe que essa desconexão é perfeitamente lógica. Os eventos tem uma razão de assim serem apresentados. A idéia não é: propor-uma-nova-forma-de-construir-tramas-cinematográficas. Este artifício de novo nada tem. Orson Welles usou algo semelhante em Citizen Kane, com o início em “Rosebud”, que na verdade era o fim do filme. É um recurso comum de roteiro .

Syd Field, professor de roteiros em Hollywood, fala em suas aulas que o bom roteiro começa a partir do momento em que já se sabe antecipadamente o final. Se esta regra vale para sua construção por que também não para a leitura dos mesmos. Este recurso procura não só estabelecer uma nova apresentação de filme como também fazer o espectador pensar mais fluentemente sobre aquilo que assiste na grande tela. Essa forma de filmar, a característica de ser irregular é uma das conseqüências básicas da cidade moderna. Seus sentidos se justapõem a todo momento, um sobre o outro. A isto chamamos de desterritorialização de sentidos. Eles tanto perdem sua naturalidade (local de origem) e sua identidade para se fundir e se moldar a novos contextos.

Após frisar brevemente a estrutura de Pulp Fiction, vamos nos deter em seus personagens. O primeiro e o mais evidente é sem dúvida alguma Travolta, nosso Vincent Vega. Tarantino na verdade fez o que quis de Travolta. Fazê-lo dançar no Jack Rabbit Slims foi remontar “Embalos de Sábado à Noite”. Remontar seu passado é um artifício que o homem urbano cada vez mais lança mão para se localizar na realidade. Vide a própria moda e música atual, são em sua maioria remodelações de coisas do passado, ou seja, pouco se criou, muito se recriou a partir de modelos já pré-concebidos. Mas esta já é outra discussão.

O Jack Rabbit Slims é o tipo do lugar congelado de vários tempos. Um museu de cera vivo. Buddy Holly, Marylin Monroe, carrões rabo de peixe e o velho rock n¿roll encaixados dentro do contexto anos 90 é puro escapismo ou fusão dos tempos. A cidade é o lugar onde todos os tempos se encontram. Toda grande cidade hoje em dia possui seus aspectos modernos convivendo com o antigo gratuitamente. Outro bom exemplo desta temática é a cidade de Blade Runner, uma cidade futurista (?), multiculturada, poliglota e poluída de signos e símbolos diversos. A L.Angeles de Pulp Fiction é tão repleta de signos que estes já não estão mais dissociados ( não o podem ) da cidade. Isto acontece quando uma manifestação, lugar ou grupo urbano deixa de ser estranho no local onde se instala. É como tentar pensar o Cristo Redentor independente da cidade do Rio de Janeiro, ou do próprio Brasil. É fácil perceber esta naturalidade adquirida na cidade bastando apenas olhar com olhos racionais a cidade, tirando seu esqueleto fundamental e decupando todos os signos que nela se instalam. Os personagens desta trama urbana convivem no coletivo, ainda que não interagindo inteiramente. (continua abaixo)

A chamada atitude blasé, que George Simmel explicitou no texto ” A Metrópole e a Vida Mental “, é característica fundamental da sociedade urbana. A naturalidade de convivência com as disparidades se torna uma atitude comum, quando não necessária, para se viver em cidades. O hibridismo e multiculturalidade de imagens anestesia a visão de cada personagem deste contexto.

Vicent Vega e Jules encaram seu trabalho da mesma forma que um trabalhador de escritório ou dono do bar de esquina. Todos desempenham, à sua maneira, papéis sociais de manutenção da realidade. A cidade tem destes signos e personas que a fazem ser o que todos os dias. Não são de apenas padeiros, guardas-de-trânsito ou médicos que constituem a cidade. Ela tem também seus viciados, ladrões, prostitutas e outros que a constituem, sendo cada cidade com a quantidade de cada um deles que a mesma permite. Com o avançar dos tempos, essa “subclasse” tem se intensificado cada vez mais nas grandes metrópoles. O underground está deixando de ser obscuro para o senso comum. Entende-se por esta idéia de underground toda a indústria existente nos pubs e subúrbios das cidades.

Pulp Fiction começa com o casal de assaltantes protagonizados pelos atores Tim Rock e Amanda Plummer. O diálogo inicial do filme se trata de como continuar ganhando dinheiro sendo assaltantes. Isto porque a possibilidade de um emprego usual de sustento está completamente descartada. Por que? O desvio é mais aprazível para ambos do que a monotonia dos escritórios, por exemplo. É o livre arbítrio que cada um pode se lançar. Esta escolha põe à prova todos os dias o homem moderno. Ele tem que fazer escolhas diárias de valor, onde não só sua posição perante a sociedade está em jogo, mas também a coletividade que o cerca.
Jules, o pregador da história, é o nosso filósofo da trama. Ele a todo momento põe em cheque os valores que visualiza. Desde uma intervenção divina até se uma massagem nos pés é ou não é uma carícia sexual. Ao recitar seu salmo Ezequiel 25:17, Jules se coloca como o executor divino daqueles que ele julga serem os transgressores de sua regra. O seu ponto máximo da trama é quando ele encara a nova verdade, a de que aquele ali não era a sua.

Mia Wallace, personagem de Uma Thurman, é o próprio consumo representado ali na trama. pagar US$ 5 por um milk-shake é o pagamento pela satisfação de gozo que todos nós, de certa forma, já pagamos alguma vez na vida.

Larry Clark em seu Kids, explanou o produto que esta sociedade produziu. São exatamente seu filhos, a next generation que criamos, tanto que o filme possui um ponto de vista diferente dos tradicionais. Ele mostra apenas a realidade daquele grupo de adolescentes e crianças, sem em momento algum tocar nas figuras familiares, exceto no encontro de Terry com sua mãe em casa. Mostrar o cotidiano de um grupo tão comum nas grandes cidades foi a proposta de Larry Clark em seu filme. Demonstrar como que o jovem, o filho social aprende tão bem os ensinamentos de seus “pais”. Aids, drogas e violência são temas comuns hoje em dia. Cada tempo possui seus karmas. Este é o nosso atual. (continua abaixo)

Butch, o boxeador vivido por Bruce Willis, é o desvio do desvio. Ele é a prova que o transgressor está tão sujeito aos enganos, trapaças, que ele mesmo produz. Ao ganhar a luta, Butch não queria apenas provar que era um vencedor, mas também ser tão vencedor quanto seu pai no Vietnã e satisfazer sua namorada francesinha. O dinheiro é apenas um ponto a ser acrescentado na trama, vale aqui o ato e não sua conseqüência.

Tarantino protagonizou o marido neurótico que teme a chegada de sua mulher em casa e encontrar uma cabeça estourada por uma magnun na garagem e dois gangsters na cozinha cobertos de sangue. Ele desempenhou a insegurança do homem moderno, perder sua mulher é o fim de sua existência em sociedade. A mulher não se agarra ao homem, mas sim o contrário. Ela é o agente mais sufocado socialmente e é o mais importante espiritualmente. Ela é que manuseia o ego masculino. Ela é que escolhe, se deixa SER ESCOLHIDA. Novamente a mulher é genitora de sociedade.

Outro episódio do filme a ser lembrado é o loja de penhores. O sadismo, o homossexualismo e outros temas equivalentes se tornaram temas cada vez mais recorrentes na nossa sociedade. Parece que o extravasamento sexual acompanha a carruagem dos tempos, o homem procura fontes alternativas de superar seu dia-a-dia com práticas cada vez mais sofisticadas de prazer. Em Trainspotting (Sem limites) de Danny Boyle, foi colocado que nos próximos 10 anos só existirão gays e drag queens.

Possibilidades de fusão até dos sexos? Quem sabe?
Natural Born Killers é o orgasmo da violência gratuita e sem medida. A primeira sequência chega a ter um tom lírico. As cenas em slow motion, com back ground de ópera fazem uma analogia à tragédia grega de destruição, diás paragmós, o despedaçamento físico do sentido e estrutura das coisas.
Mickey e Mallory são o ritual dionisíaco do banho de sangue. Eles fazem a vida alheia parecer uma pequena peculiaridade a ser eliminada de seu caminho. São serial killers que procuram a satisfação de bem viver, como pode ser vista no fim da fita. A ênfase dos meios de comunicação em divulgar esse ou aquele assassinato bárbaro alimenta um sentimento intrínseco que pessoas tem sobre a morte. Todos querem fazer parte da trama que ali ocorre. No filme: “Mate-me Mickey!!” . Que sociedade é essa? Alguém aí discorda do sadismo das pessoas face aos assassinatos sangrentos e macabros. Na época do leilão dos bens de Jacqueline Kennedy Onassis, foi idealizado um leilão dos artefatos do famoso canibal de Milwakee, nos Estados Unidos para indenizar as famílias das vítimas do assassino. Houve muita discussão na época a respeito da realização do leilão. Todos nós, cada um à sua maneira, já manifestamos esse sadismo pelo grotesco em nossas vidas, por vezes inconscientemente talvez.

Amor à Queima Roupa poderia ser encaixado num contexto de romance puro, onde prevalecem as parábolas de anti-heróis que participaram de todas essas tramas cinematográficas. O casal que acaba por captar uma mal cheia de cocaína e tenta se arranjar com a mesma, acabando saindo-se bem apesar de tudo. O imprevisto é outra constante urbana. É um alívio e ao mesmo tempo um desespero ao ser abordado pelo destino urbano, aquele que tanto pode lhe dar tudo e tirar-lhe tudo no instante seguinte.

A leitura cinematográfica é uma forma muito sadia de se analisar a sociedade. No Brasil, até a chanchada possuía seu teor político ou social. Ao fazer o brasileiro rir de si mesmo ela foi capaz de nos fazer superar nossa própria desgraça, nosso drama diário existencial. Foi na tragicomização do cotidiano que o cinema brasileiro encontrou a fase mais áurea de criação, Tanto que nos carnavais da época (geralmente as chanchadas eram exibidas no carnaval) era sucesso certo a mais nova chanchada que a Atlântida produzia. (continua abaixo)

Pulp Fiction, não é só um filme de violência gratuita. Ele começa no título:

PULP (pulp)n.
1. A soft, moist, shapeless mass of matter.
2. A book containing lurid subject matter, and being characteristically printed on rough, unfished paper.

Podemos fazer uma analogia de definição a nossa própria sociedade. Talvez ela seja mesmo suja, amorfa, uma coisa realmente reles. Quem são os culpados? Todos nós. O homem cria seu meio de vida. Índios viviam muito bem o seu na floresta até chegar o estrangeiro e mudar tudo, para sempre. O homem de hoje nunca vai ser o mesmo amanhã. Valores e conceitos são volúveis atualmente. A descartabilidade das coisas e pessoas tem se tornado cada vez mais constante. O mercado de serviços cresce, até um dia onde não haverão mais produtos e sim serviços prestados. Isto é possível sim. Não dá mais para ignorar esta ou aquela possibilidade. O mundo está sujeito a uma série de mudanças que não pedem licença para se manifestar. Então perdemos o controle? Há muito tempo. A cidade agora cresce sozinha, como um vírus. Vírus esse que foi disseminado por nós mesmos. Ou melhor criado por nós. Deixemos então que as forças urbanas tomem forma e que seus PERSONAGENS SE ADAPTEM ÀS NOVAS PERSPECTIVAS.

Sobre Cães de Aluguel não há muitas analogias a se fazer. O assalto ao banco planejado pelos Mr. Blue, Pink, Red e etc só acrescentam o modelo descontínuo de narrativa peculiar de Quentin Tarantino (e de “n” outros cineastas competentes que existem por aí, devo frizar).

A dúvida da existência de um traidor no grupo é o ponto que move toda narrativa. Irônico que sobram apenas dois elementos do grupo, que se confiam mutualmente mas desfecham a trama junto, acabando com a dúvida do telespectador sobre o traidor.

As relações humanas baseadas na confiança estão cada vez mais deterioradas. Confiar não é mais uma atitude do cidadão urbano, até porque seu contato com o outro pode ser maculado pela orgia de signos que se seguem no seu cotidiano. O risco em se expor para o outro é constante, pois as pessoa se prendem mais pelo benefício que o outro pode lhe atribuir do que pelas relações afetivas propriamente dita. Não que tudo seja feito em função do interesse, mas, inconscientemente o homem procura o lucro em suas relações de interatividade. Mais ainda, ELE QUER SER NOTADO pelos outros, ser diferenciado dos demais. O igual na sociedade é comum, normal e tende ao esquecimento.

Designar cores para os parceiros do assalto não foi apenas uma atitude de preservação das identidades, mas também uma determinação que imuniza a igualdade entre os mesmos, tanto que o Mr. Black foi suprido desta relação exatamente por expressar uma idéia de força, poder ou mais que o outro. Irônico foi a alcunha de Mr. Pink ter ficado logo com um negro. Tarantino não perdeu a chance de colocar sua ironia em dia. Ironia, doce emoção do pacato cidadão metropolitano. O exercício deste sentimento é como a água no deserto para o viajante para o habitante da cidade. Este mecanismo o faz perceber e superar toda a realidade que o cerca. Seu drama pessoal não interessa ao outro até porque ele mesmo não se interessa pelo outro por sua vez.

A poluição não é apenas do ar que respiramos na cidade. Ela é composta de toda simbologia e significados que nos circundam. Para não cair no papo filosófico desta questão de ver a REALIDADE, basta-nos neste momento frisar apenas que devemos estar atentos às 1ºs, 2ºs e nºs impressões que captamos da realidade, para não ver demais dela e nem de menos. Para poder transitar neste conjunto fugaz de signos e não se fundir à loucura urbana (dramático, não?) em que vivemos. no entanto, as 1ºs, 2ºs e nºs impressões estão sujeitos a mutabilidade. A mutabilidade é o aspecto descartável, temporário e instável de todas as informações que nos circundam. Tudo muda, e cada vez mais rápido. Só uma coisa tem permanecido…:

O Mundo em globalização tende naturalmente a esta fusão de signos, ou melhor, corporações e demais associados. Bem como as personas que operam estas mudanças e as que sofrem as influências diretas dela tendem a se adaptar ao N.W.O (NEW WORLD ORDER) que o grupo Ministry pregou no disco Psalm 69 de 1993. A tendência mundial é a da homogeneização das tribos urbanas, tanto que as mesmas agora transitam pelos mesmos locais sociais sem necessariamente se enfrentarem. Exemplo? Vejamos a ressurreição da noite na Praça Mauá no Rio de Janeiro, trazendo vários membros da classe burguesa carioca. Todas as tribos de Patrícias, Maurícios e chulés se encontram por ali pacificamente. (continua abaixo)

O indivíduo do mundo contemporâneo é resultado do multiculturalismo a que é submetido. Ele não é mais agente, e sim instrumento. Estamos condenados? Quem o sabe? Longe querer arriscar, mas mesmo assim vamos lá. Poderia o mundo estar se fragmentando cada vez mais e a globalização crescendo até a exaustão? Chegará a um ponto onde todas as mega corporações se fundirão numa só, criando “O Sistema”.

A abordagem cinematográfica atual tem se preocupado, ou se ocupado, com temas mais engajados com a realidade, situação similar ao do Cinema Novo ocorrido no Brasil com a geração de Glauber Rocha, um dos nossos maiores cineastas. É a nossa Terra em Transe . Talvez por menos pretensiosa seja a atitude do cineasta em mudar a realidade, sua atitude de valer uma câmera na mão e uma idéia na cabeça já fazem muito por toda humanidade, sem o perceber.

A poluição não é apenas do ar que respiramos na cidade. Ela é composta de toda simbologia e significados que nos circundam. Para não cair no papo filosófico desta questão de ver a REALIDADE, basta-nos neste momento frizar apenas que devemos estar atentos às 1ºs, 2ºs e nºs impressões que captamos da realidade, para não ver demais dela e nem de menos. Para poder transitar neste conjunto fugaz de signos e não se fundir à loucura urbana (dramático, não?) em que vivemos.

“A cidade não pára, a cidade só quer
O de cima sobe e o de baixo desce…”
Chico Science e Nação Zumbi

Trabalho apresentado na Pontíficia Universidade Católica do Rio de Janeiro, cadeira de Antropologia Cultural, por Carlos Augusto Alexandre Senra.

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