JUCA, MEU BISAVÔ


Dias desses me flagrei falando das estrepolias do Seu Juquinha, este simpático senhor ao meu lado. A imagem é bem antiga, eu não tinha barba, ele ainda vivia entre nós. Seu Juquinha não lutou contra o tempo, não se rendeu a idade e tão pouco deixou de ser quem é até o fim da sua existência. Suas últimas palavras para mim foram algo do tipo:
– Não vejo a hora de ir embora daqui. Saco cheio.

Meu finado bisavô não era uma pessoa amarga, tão pouco retrógrada e muito menos intransigente. Era extremamente normal, normal para quem criou uma grande família, com muitos filhos, netos e bisnetos. A imagem que me vem a cabeça quando lembro dele é do seu sorriso no caixão, algo como quem finalmente vai descansar dessa vida.


Era pessoa simples, severo quando necessário, às vezes até meio frio com as pessoas, mas gostava de ter sua casa cheia, abria sempre um sorriso para os parentes mais próximos, fechava o rosto para os chatos, vizinhos e coisa parecida. Como todo avô tinha muitas histórias, mas gostava mais de ouvir os que os outros tinha para contar para evitar a fadiga. A fala mansa, às vezes precisava me esforçar para ouvir. Muito tempo depois descobri que era a minha própria audição que tinha lá seus problemas.

Seu Juca queria sempre entender das coisas. Quando os netos estavam por perto não prestava atenção a mais nada. Dona Aurora comandava a cozinha e colocava a mesa com a ajuda dos bisnetos e filhos.
O mais engraçado era a hora do almoço. Primeiro sentavam-se todos os homens da casa e só a medida que alguns terminavam sua refeição as mulheres comiam. Era engraçado quando alguém de fora se insinuava à mesa.

Num dos muitos aniversários do seu casamento com Dona Aurora, e foram muitos, num dos últimos onde pude estar presente, Seu Juquinha estava danado. Dançou com todas as mulheres da festa, sem demonstrar o menor cansaço. Coisa linda de se ver.


Dona Aurora ainda ri bastante das histórias de Juquinha, como ela costuma chamá-lo. Não dói lembrar dele, é bom. É assim que gosto de me lembrar das pessoas, não pela dor da perda, mas pela felicidade com que vivemos.


A família aumentou. Sempre que podemos tentamos juntar os mais próximos a mesa. Contrariando Seu Juquinha, homens e mulheres sentam juntos a mesa hoje. Eu sei que em algum lugar se ele não está sorrindo com isto deve estar muito feliz pelo trabalho que fez em criar uma família tão unida.

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