EDUARDO E RENATA, UM LONGA HISTÓRIA


Há muito tempo atrás criei dois personagens fictícios baseados em várias histórias reais. Não tinha muita maturidade para escrever sobre pessoas que não existem. Renata morreu sufocada no próprio vômito, um acidente horrível. Eduardo foi esfaqueado brutalmente. Eles não existiam mais até que um dia encontrei um blog que nem lembrava que existia as histórias deste casal. Além de não lembrar deste conteúdo, não lembrava que eu era o responsável por cada uma das mortes.

Não que eles tenha ressucitado, mas suas vidas ainda assombram os arquivos que guardo na memória. Esta é a primeira história de Eduardo e Renata.

-…inferno!
-Liga o ventilador. Tá funcionado?
-Faz um esporro danado.
-É isso ou ficar reclamando no meu ouvido.

Noite de muito calor no pequeno conjugado. Copacabana tem das suas vantagens. Imóveis baratos, supermercado perto, fármacia, cinema, praia, ônibus, sexo, cerveja e principalmente poder dizer que está na Zona Sul, em uma área que de nobre sobrou apenas o nome. Mas nada disso compensa esse calor. Não dá nem para lembrar quando fez frio nesse Rio de Janeiro.

Ventilador barulhento, louça acumulada na pia, banheiro completamente molhado, roupas para todo lado, livros e discos espalhados e uma pilha de jornal que data de tempos atrás no canto da cozinha. Fotos na parede, revistas em quadrinhos, filme para devolver na locadora desde anteontem, geladeira vazia, chão acumulando poeira de dias. Cama desarrumada, cinzeiro cheio, latas de cerveja dispostas em pontos nem um pouco estratégicos pelo recinto. Cheiro de loção de barba no banheiro. É o típico apartamento de um solteiro.

Renata já havia vindo ali antes. Umas duas ou três vezes, o suficiente para começar a dar seus palpites na decoração e funções do pequeno cubículo onde Eduardo se espremia para viver, pelo menos até completar a faculdade, começar a trabalhar e tudo mais. Juntar o suficiente para alugar algo maior. O principal motivo era a falta óbvia de espaço que já não aguentava mais. A presença de Renata já era motivo de sobra para pensar nisso.

No começo era só pelo estudo, mas Eduardo descobriu que o Rio de Janeiro poderia lhe dar muito mais que educação. Mendes, sua cidade natal ficou pequena demais para sua sede de ambição. A antiga morada no Beco do Socorro era um refúgio e lembrança, saciada nos raros finais de semana em que ia visitar sua família.

-Bem melhor, viu? E nem tá fazendo esse barulho todo.
-Tá, tá…
-Por que não compra um ar condicinado?
-Como?
-Pede pro teu pai.
-Não, já basta ele pagar a faculdade e agora eu vou ficar pedindo ar condicionado para ele?
-Mas ele pode te dar.
-Eu não quero pedir.

Seu Jorge não era pão duro, pelo contrário, dava muito valor a tudo que conquistara. Queria que Eduardo tivesse ficado por ali mesmo ajudando nas vendas do bar. Mas quando seu filho bateu o pé e disse que ia ser arquiteto os olhos do velho português se encheram de planos. Já imaginava Eduardo contruindo casas, prédios e tudo mais. Via que sua prole poderia realmente dar muito mais dinheiro que atrás do balcão.

-Teu pai ligou.
-Você atendeu o telefone?
-Ué, tocou e atendi, por que?
-Tá, e o que ele falou?
-Bravo ele.
-O que foi que ele disse?
-Perguntou onde você estava e quem era eu. Pensei que tinha falado de mim para seus pais.
-Falar o que? A gente se conhece não faz nem um mês…

Voltaram ao que estavam fazendo como se aquela discussão nunca tivesse acontecido. Ou Renata percebeu que fizera algo errado ou Eduardo finalmente se deu conta que estava amando.

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