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“CALOURO TEM QUE MORRER” G.T., 27 ANOS, ESTUDANTE DO 3º ANO DE QUALQUER COISA NUMA FACULDADE PARTICULAR..

Está circulando nas redes imagens de um trote em uma cidade por aí, algo que está levantando questões que sugerem um discurso muito além do que o ato covarde de futuros profissionais de Direito, Engenharia e as mais diversas carreiras acadêmicas que cursam e tudo mais.

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Sons Of Anarchy, Jax Teller tenta negociar com Damon Pope uma saída da cadeia para ele e seus associados. Imagem meramente ilustrativa.

A tradição do trote remonta décadas de vida acadêmica. Todo mundo já passou por algo parecido, salvo as devidas proporções. Ridicularizar o novato faz parte do trabalho dos veteranos. É um rito de passagem, visto até em muitas comunidades tribais quando o jovem deixa a infância e se torna um adolescente ou um adulto perante a tribo.

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Como somos civilizados, adotamos o escárnio como forma de interagir com o estranho, a novidade e diferente. Chamamos de negro, filha da puta, viado, vagabundo, burro e toda sorte de ofensas que podem abalar a mente do pobre diabo que resolve ingressar numa faculdade.
O fato é que negro, filha da puta, viado, vagabundo e burro não denigre ninguém se por acaso alguém é realmente negro, sua mãe trabalha na zona, gosta de pessoas do mesmo sexo ou tem problemas de compreensão das coisas ou uma limitação cerebral.
Um dos grandes problemas de toda essa coisa do trote é:

1) Deixar que qualquer pessoa imponha sua vontade sem nosso consentimento.

2) Que precisamos rever determinadas atitudes que não são aceitas dentro do ambiente acadêmico.

Nem preciso lembrar jovens que já morreram nestes trotes de cidades do interior e algumas capitais. Sem contar o trauma que alguns passaram e deixou traços que separam de sequelados e agressores, porque no ano seguinte estes mesmos calouros serão veteranos e vão repetir exatamente o mesmo comportamento tribal quando receberem novos estudantes.

A tribo de verdade tem uma razão para seguir com seus ritos de passagem. A interferência do “homem branco” trouxe mais desgraça que algum benefício para eles. O exemplo é tão claro que é só olhar a garota pintada de Xica da Silva e os idiotas fazendo referência a um assassino de judeus.

Para quem chegou agora abaixo tem o link para as referida notícia
http://g1.globo.com/goias/noticia/2013/03/cheguei-pensar-que-ia-perder-visao-diz-aluno-agredido-em-trote.html
http://extra.globo.com/noticias/brasil/fotos-de-trote-com-conteudo-preconceituoso-geram-polemica-na-internet-7870873.html

E claro, os entendidos em comportamento humano também tem uma opinião sobre este assunto, sempre:
https://twitter.com/search/realtime?q=trote&src=typd

Quando eu era pequeno meu avô só me deu um conselho quando alguém tentar fazer algo comigo que eu não concorde:
– Diga não e vá embora. Se insistirem dê um soco bem no nariz. Mas precisa ser no nariz para sangrar.

Bem meu avô, felizmente não precisei bater em nenhum veterano, mas entrei no espírito da coisa e aceitei a brincadeira. Só não deixei cortarem meu cabelo, mas fiquei todo cagado de tinta guache e outras merdas que me jogaram em mim. Eu lembro que na escola uma vez me deram muita ovada e voltei fedendo para casa. Foi meu aniversário de 16 anos. Mais da metade que me tacou ovo ainda não tinha nem feito sexo de verdade e eu já estava com aquela garota linda do fim da rua a quase um ano quando ela terminou comigo e nunca mais passamos noites a fio suando sobre a varanda dela ou no quintal da irmã, se é que me entendem.

Já briguei duas vezes na minha vida. A primeira fiz exatamente o que meu avô me ensinou, mas errei o rosto e acertei a barriga. Ele acertou de volta bem no nariz e funcionou mesmo porque apaguei alguns minutos. A segunda vez um vizinho resolveu mostrar que o seu karatê era superior ao meu judô e eu provei o contrário. Sou amigo dos dois até hoje.

Houve uma terceira briga, mas esta fica para outro dia porque eu já escrevi demais por hoje e ninguém aqui quer saber das minhas memórias sexuais nem das brigas da escola.

2 pensamentos sobre ““CALOURO TEM QUE MORRER” G.T., 27 ANOS, ESTUDANTE DO 3º ANO DE QUALQUER COISA NUMA FACULDADE PARTICULAR..

  1. Durante 1 ano e alguma coisa dei aula num curso a distância da UFRJ. A galera ali não era mais adolescente há bem uns 20 anos, embora um ou outro novinho circulasse pelo lugar. Apesar da idade e maturidade, o que se via no primeiro período – pra quem eu dava aula – era a mesma coisa que se vê em qualquer 1º período de uma universidade séria: ansiedade, orgulho pela conquista universitária, confusão diante da coisa de matérias, trabalhos, resenhas etc. A mesmíssima coisa. Calouros sem tirar nem pôr.
    Achava (e ainda acho) triste que pessoas afastadas da sala de aula por essas coisas da vida, trabalho, filhos, etceteras depois de finalmente passarem na bosta do vestibular tivessem de estudar em um colégio primário da perfeitura…. É que é assim, o CEDERJ funciona onde dá e onde dava pra funcionar em Saquarema era nesse colégio municipal cheio de cartazes estilo Dollynho. Enfim.. tinha e tenho a teoria forte de que se os alunos aplicassem trote uns nos outros seria possível quebrar aquele ambiente infantil e não acadêmico, transformá-lo num lugar onde “só os mais fortes sobrevivem” e, principalmente, criar entre eles (que podiam ficar semanas sem se ver, já que as aulas presenciais só são obrigatórios pro 1º período) um vínculo de grupo, de tribo.
    Levei a ideia um dia pra eles. Foi protesto generalizado, que trote é vexatório, que era uma absurdo pintar os outros, que ninguém queria ser pintado, que era uma humilhação. Fiquei passada. Devo ter dito alguma coisa do tipo “porra, vocês são uns cuzões mesmo!! medo de tinta guache, é isso mesmo???”. Eles chegaram a conversar alguma coisa sobre “trote social”, isso de levar alimentos… Broder, leva alimento, mas pinta a galera! Tentei explicar isso tudo aí que você falou, que era uma questão ancestral, um rito de passagem, uma primitividade boa de violência levinha, ninguém ia morrer por causa daquilo. Ao menos não por ter sido pintado ou obrigado a vestir a camisa pelo avesso.
    Que tudo era questão de impôr limites e que cabia a cada um ali, adulto, dizer “não estou afim”. Contei da minha experiência recebendo e dando trote (um dos dias mais felizes da minha vida).
    Nem tudo na vida tem exatamente cabimento, mas é antiga e, como todas as coisas antigas, tem sua sabedoria. Acho que nêgo tá tudo muito limpinho, muito correto e muito medroso. Deixando de confiar nas antigas e boas coisas inexplicáveis como o trote, mulheres cheinhas e gozo na cara. É tudo muito triste e muito negação do que realmente somos: animais que se comunicam de forma mais complexa que um cachorro, mas que ainda sim são animais. Deveríamos nos orgulhar disso e aprender a conviver com os instintos, por mais perturbadores que eles sejam, mas não, vamos virar um monte de cuzões. Tipo, quanto mais estamos tentando nos limpar, mais cagados estamos ficando.

    Só pra fechar a história, passei eu mesma a aplicar trotes nos calouros: uma aula recheada de palavrões, uma correção escrutinada e severa dos trabalho. A galera curtia; no fim se sentiam felizes e unidos por terem sobrevividos juntos à experiência.
    Nem sei se ainda estão por lá. Soube que o CEDERJ tá em decadência, querem distribuir diploma de universidade pública e tal e aí ninguém liga de estudar antropologia olhando prum cartaz sobre o Renascimento que tem como exemplos de pintores as Tartarugas Ninja.

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