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9 DE NOVEMBRO DE 1988 x 13 DE JUNHO DE 2013

Volta Redonda 1
Em novembro de 1988 não existiam celular ou internet. José Sarney havia assumido a presidência após a morte de Tancredo e a experiência democrática ainda engatinhava como até hoje ainda padecemos de uma experiência plena de democracia.

Eram coisa de umas seis ou sete horas da noite. Meus pais tinham um Corcel LDO e um Fiat que chamávamos de Jamaica por conta de um adesivo no vidro traseiro. Voltávamos da casa de meus avós com alguns boatos que ouvimos na rádio e de pessoas que vinham do centro da cidade, eu e minha mãe. Vamos para casa, de lá telefonaríamos para o Pronto Socorro Municipal onde meu pai estaria dando plantão.

Ao chegar no centro da cidade encontramos as ruas da Vila Santa Cecília vazias e alguns soldados passando entre as ruas paralelas do Largo Nove de Abril. Foi a primeira vez que eu vi alguém sendo espancado com um rifle. Era um senhor de meia idade, um embrulho debaixo do braço, não poderia ser metalúrgico e tão pouco grevista. Devia estar como nós tentando chegar em casa.

Aceleramos aquele Fiat velho que levou durante muitos anos minha mãe para Barra do Piraí estudar até a saída do centro da cidade e bem em frente ao Escritório Central da CSN um soldado apontou seu rifle para nosso carro. Nunca vi minha mãe tão apavorada na minha vida. Ela se colocou na minha frente e me mandou ficar abaixado. Pensei por um instante que seríamos presos ou alvejados naquela hora e nem sabíamos direito porque.

Sem tirar o rifle da mira do nosso carro fomos advertidos a sair dali o mais rápido possível, mesmo depois de explicarmos que aquele era o único caminho para chegar ao nosso bairro. No instante seguinte um batalhão com baionetas nos rifles marchavam na nossa direção. Não lembro de saímos de ré ou foi um cavalo de pau até a Praça Brasil, do lado oposto do centro da cidade.

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Ali chegando várias pessoas na mesma situação que nós e muitos metalúrgicos batendo nos postes das bandeiras que ficavam ali na praça. No topo de cada mastro havia um país, estado, bandeira da cidade, algo assim. As pedras batiam naquela estrutura oca de metal vindo da mesma siderúrgica onde havia uma greve naquele momento. Incitava os manifestantes e apavorava que estava ali e não sabia para onde ir.

Resumindo. Voltamos para um local seguro, a casa dos meus avós bem longe do centro e da CSN que cortava a cidade ao meio e estava em pé de guerra, dentro e fora da usina.

Vim a saber depois de soldados que se recusaram a colocar suas baionetas porque sabiam que iam encontrar conhecidos na multidão e até parentes. Foram presos e não se teve notícias durante meses.

Supostamente morreram apenas três metalúrgicos nesta greve. Morreram mais. O Exército invadiu minha cidade natal e debandou manifestantes com seus rifles. Não havia bala de borracha naquela época.

Custe muito a dormir esta noite até finalmente conseguirmos uma linha desocupada e saber que meu pai estava bem e longe daquela “baderna”.

O relato ainda tem algumas lacunas e acredito que eles vão se lembrar de tudo que aconteceu melhor do que eu.

É por estes e outros motivos que eu ainda faço questão de votar na minha cidade natal. Quero um lugar melhor para viver, as próximas gerações e quem sabe um dia até eu mesmo, não sei.

Não tinha uma opinião formada até agora em relação às manifestações que ocorreram nestes últimos dias e principalmente ontem, 13 de junho. Agora são quase quatro da manhã do dia 14 e não sabemos direito o que vai acontecer e se alguma coisa vai mudar.

Em Volta Redonda muita coisa mudou e ainda padece de mudar. Explodiram o monumento erguido pelos três mortos na greve horas depois de inaugurado e ele está até hoje lá, escombros que viraram uma fonte. O desemprego aumentou depois da greve, há relatos de suicídios e a criminalidade aumentou ao longo dos anos.

Nossa casa já foi assaltada três vezes e o bairro onde moro fica deserto de noite, algo bem diferente na época em que eu era adolescente.

As consequências daquele 9 de novembro eu vivi intensamente e acredito que quem passou esta semana dentro e fora das manifestações vai se lembrar bem – alguns sentiram isso na pele, mas até aí não foi apenas uma escolha de cada um, foram colhidos nas consequências de se viver em grandes cidades sujeitas a este tipo de coisa quando você quer simplesmente voltar para casa.

Espero que todos estejam bem, principalmente as famílias de todos os envolvidos, mesmo os policiais que estavam dentro da ação cumprindo ordens ou excercendo da sua autoridade, seja como for. Os militares daquela noite fatídica em Volta Redonda também não tiveram escolha, embora alguns deles tenham levado isso a ferro e fogo e outros não.

Espero que alguma coisa mude de verdade. Não vinte centavos de passagem, porque isso reduz muito o problema que é muito maior. Se vivêssemos num país justo nem precisaríamos ir às ruas. E se ainda fosse preciso reinvidicar algo publicamente seria direto e pacífico, tanto de quem se manifesta quanto quem controla a ordem.

Eu chamaria isso de Utopia se eu não tivesse esperança em algo maior. Não pude me manifestar e nem sei se o faria. Tenho meus próprios problemas para resolver e eles são tão graves quanto a ideologia de cada um. O trabalho me sustenta e ele ainda é uma prioridade na minha vida. Dele dependem pessoas que amo e talvez eu fizesse mais sacrifícios se a vida deles estivessem em perigo como alguém já fez por mim anos atrás naquela greve.

É tudo uma questão de perspectiva. Não é errado você se omitir ao que está acontecendo. Errado é você não se importar e simplesmente ignorar isso tudo. Eu me importo.

Vamos ver o que vai acontecer amanhã e depois.

Operários da Companhia Siderúrgica Nacional na aciaria durante greve.
Volta Redonda, 9 nov. 1988.
Fundo Volta Redonda, foto 481.
Acervo Arquivo Edgard Leuenroth.

Operários da Companhia Siderúrgica Nacional recuperam o alto forno durante greve. Volta Redonda, nov. 1988.
Fundo Volta Redonda, foto 528.
Acervo Arquivo Edgard Leuenroth

Confronto entre operários e soldados do exército durante greve.
Volta Redonda, 1988. Foto: Oswaldo Prado
Acervo Arquivo Edgard Leuenroth

As imagens que seguem neste post são dos dias de novembro durante a greve. Eles lutaram pelo mesmo direito que tantos outros lutaram ontem.

Faixa bônus do post.

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