1969

ALGO EM 1966 QUE ME FEZ PENSAR SOBRE 1988 E TEM TODA RELAÇÃO COM 2013: PROTESTOS, MÉDICOS IMPORTADOS E QUEM ROUBA VOCÊ

Quando nossa presidente disse na televisão que vamos importar médicos para atender áreas mais carentes e ignorar o problema da saúde brasileira está relacionado a educação, formação de profissionais de todas as áreas, bem como a capacitação de pessoas envolvidas com o bem estar da nossa população e que tudo isto está relacionado a algo muito maior pensei no meu pai que fez parte da última turma da Faculdade Nacional de Medicina da Praia Vermelha, de tudo que ele passou e o que ele está pensando agora com esta notícia.

Numa madrugada covarde em 23 de setembro de 1966, forças policiais do regime militar espancaram cruelmente jovens estudantes que haviam se abrigado no antigo prédio da Faculdade Nacional de Medicina, no campus da Praia Vermelha, e depredaram suas instalações. O episódio ficou conhecido como o “Massacre da Praia Vermelha” e precedeu outros ainda mais graves contra os que, naqueles anos sombrios – mas apesar disso, plenos de esperanças -, ousaram se rebelar em defesa da autonomia da universidade e em favor de uma sociedade e uma nação solidárias.

Nesta invasão pelas forças da ditadura, seiscentos estudantes foram agredidos e as forças militares depredaram o próprio patrimônio público. Foi de fato um capítulo exemplar do vigor e da importância do movimento estudantil. Além das muito conhecidas e fartamente documentadas arbitrariedades perpetradas pela ditadura, como a censura e tortura, um fator que agitava a academia, em meados dos anos sessenta, era a iminente reforma universitária.

Naquela época, 1966, a modernização da universidade brasileira era uma necessidade. O governo não avançava nesta questão por conta da influência marxista que afrontava as diretrizes daquele tempo de repressão, cerceando a liberdade de expressão, mesmo no meio universitário. Este engajamento “subversivo” contra qualquer influência americana era nocivo à situação e haviam constantes embates pela ampliação da representação discente nos colegiados, pela autonomia universitária e pelo fim da cobrança de anuidades – que foi estabelecida pela Lei Suplicy de Lacerda.

De madrugada, entre 2h e 3h, os policiais invadiram o prédio. Embora as pessoas tenham sido autorizadas a sair, o caminho para fora das instalações era um corredor polonês. A borrachada já comia solta naqueles tempos, e quem foi para casa só soube mais tarde pelo noticiário o que aconteceu.

O dia ficou marcado como o Massacre da Praia Vermelha e deve ser lembrado como um “evento símbolo que evidencia a importância do movimento estudantil na luta pela democracia e pela autonomia universitária.

Os atos de bravura de uma juventude acostumada a respirar liberdade e que se via subitamente sufocada pelas forças mantendedoras da ordem hoje são um reflexo de uma juventude do século passado que lutou de verdade pelo fim das desiguldades e de um futuro para seus filhos.

Se o que estamos fazendo hoje em redes sociais e no meio das ruas em todas as cidades surtir efeito vamos entrar para história com algum nome simbólico que será lembrado pelas futuras gerações.

A turma de 1969, a última a cursar o antigo prédio da Faculdade Nacional, ainda se encontra até hoje em confraternizações que relembram seus bons tempos de faculdade, experiências de vida e suas aspirações para a vida que vos resta.

DSC03020Eu não perguntei pro meu pai o que ele acha do governo ignorar quem lutou a vida inteira para cumprir o juramento de Hipócrates e porque a classe médica, bem como outras classes, nunca teve o investimento sério nas condições de trabalho, aperfeiçoamento e oportunidades justas de emprego. Eu sei que ele trabalhava de segunda a segunda e deu um duro danado para criar uma família da qual faço parte e tento deixá-lo orgulhoso todos os dias.

Eu sei que quando a sua turma inaugurou uma pedra comemorativa com uma placa onde tinham os nomes de cada um ali, onde ficava a antiga faculdade, o governo municipal arrancou a pedra e sumiu com a placa na calada da noite. Mesmo depois de insistentes tentativas em reaver a mesma, nada foi justificado e provavelmente o material foi fundido para construir alguma coisa inútil ou jogada ao mar junto com tantas coisas que jogamos todos os dias numa rede social a na cara de pessoas que amamos.

Eu não o que tudo isso que aconteceu esta semana vai dar resultado e nem como todos nós seremos lembrados. Eu sei que estou cansado de tanta coisa errada a começar pela nossa atitude em relação às nossas vidas. Estou cansado de ver gente roubando descaradamente do fruto do meu trabalho e todos que dão um duro danado para viver. Eu quero justiça, doa a quem doer, amigo ou inimigo, conhecido ou desconhecido.

Ninguém vai tomar o que é nosso mais, nem meu e nem da minha família. Então se você chegou ao final deste texto, bem, amigo, você sabe do que estamos falando. O buraco é muito mais embaixo e a verdade sempre virá à tona. Não vamos nos deixar enganar com falsas promessas nem vamos depor o poder instituído por nós.

As mudanças virão no seu devido tempo e nossos pais sentirão orgulho do que fizemos para seus netos e futuras gerações que vão se orgulhar de onde vieram.

Eu me orgulho do meu pai e todos que como ele enfrentaram as forças da injustiça e opressão. Temos a razão ao nosso lado, mas não vamos deixar a militância nublar nossa ideia de justiça.

É preciso fazer alguma coisa, tudo ao seu tempo, de forma correta, sem quebrar nada nem pernas de pessoas. É preciso apenas mudar e esta mudaça começa dentro de casa e depois toma as ruas.

Se seremos capazes de fazer isso eu não tenho dúvidas. Esta semana demos apenas o primeiro passo. Um dia de cada vez.

Nunca vou me esquecer da turma de 1969 no Rio de Janeiro, a luta em 1988 em Volta Redonda e os dias de junho em todo o Brasil.

Ainda preciso perguntar pro meu pai o que ele acha disso tudo. A sabedoria das suas palavras sempre me trouxe a razão, ainda que eu estivesse certo e principalmente quando eu estava errado.

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Eu só estou cansado.

Bônus

Porque este disco está bem relacionado a tudo o que está acontecendo agora e foi a última coisa boa que o Max fez com Sepultura.

Mas afinal de contas o que é um hospital?

Bem, quem nunca conviveu dentro do ambiente médico e sempre viu o lado do paciente nunca vai entender o outro lado da questão. O buraco é bem mais embaixo. Se por um lado não existe o empenho do governo para investir em profissionais e condições de trabalho, culpar a classe é de uma ignorância ímpar. Se por um lado o grande vilão são os planos de saúde que tomaram conta da saúde brasileira, a população deixou se sujeitar às péssimas condições de atendimento público onde o governo é o maior responsável, não os médicos, que mesmos os abastados pela boa educação e condições de cursar uma faculdade, lutam bravamente no exercício da sua função.

“Tudo o que aprendi eu devo à medicina pública e beneficente. Era o orgulho dos médicos o trabalho público, de ensino, pequisa e beneficente. Medicina é uma missão. Hoje a gente vê que outras dimensões estão sendo mais valorizadas que as pessoais: tamanho, empresa, dinheiro, conglomerados. Está se pervertendo uma atividade que é basicamente humana.” afirma o Dr.Luiz Roberto Londres para o jornal O Globo. Vale conferir a entrevista dele onde grande parte do que foi colocado aqui fica bem nítido.

“Quando aceitou-se que pessoas ou instituições que deveriam estar servindo à medicina, dela se servissem, a coisa começou a mudar. O código de ética é muito claro. O que gostaria de ver é ressurgir a chama de uma atividade basicamente beneficente e pública. Claro que se pode ter o particular e ganhar dinheiro com isso, mas tem que ser transparente, e a relação médico-paciente tem que ser respeitada.”

Leia o restante deste relato em http://oglobo.globo.com/saude/temos-que-voltar-medicina-antiga-8623572.

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