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O ANJO BÊBADO DAS ESTRADAS E UMA HERANÇA MALDITA

Por Mauro Dahmer

São Francisco. Noite. Enquanto um bando de girafas maneja garfos e facas para comer seu delicioso churrasco, um conversível solitário se acidenta saltando o muro de cactos em flor. Apesar do forte estrondo, o rapaz que dorme na casa não percebe nada e, em sono profundo, encarna um zumbi de sua época. Nem morto nem vivo, protege seu estado mental daquilo que o papai pós-guerra tenta lhe enfiar goela abaixo. Cool. Na vitrola da década de 50 tocam Chat Baker ou as Quatro Estações. Sexo, Jazz e paraísos artificiais. Amanhã é dia de pegar a estrada de volta para Nova Iorque. Nada de entrar para o corinho dos contentes. Mais tarde alguns críticos vão dizer que ele e seus amigos eram apenas doidões em busca de aventuras. Estavam enganados. Jack Kerouac escreveu como um príncipe de sua época e como ninguém fizera antes.

Jean-Louis Kerouac nasceu em 1922, filho da voluntariosa classe operária americana que venceu guerras e batalhas, aceitou na liberdade e, supostamente, ajudou a construir a maior democracia do Ocidente, da qual todos os seus filhos deveria se orgulhar. De ascendência franco-canadense e formação católica, numa América protestante, Jack Kerouac teve seu quinhão trágico na vida real e dele fez a sua escrita. Sorte nossa. Depois de tentar remediar a situação financeira da família conquistando uma bolsa de estudos – jogando futebol americano – na Columbia University, começou a andar com uma turma da pesada pelas ruas de Nova Iorque. Allen Ginsberg, Neal Cassidy, Lucien Carr e William Burroughs, entre outros.

Entrou para a marinha mercante, onde provavelmente adquiriu o gosto pela vida errante e pela aventura. Em terra, tomando o rumo da costa oeste, inventou uma América nova que ficava no meio de uma estrada, no nada. Descobriu na batida do jazz, em hotéis baratos e no convívio com seus amigos uma nova onda.

Já tinha publicado The Town and the City, quando numa de suas viagens escreveu uma das novelas que definitivamente mudariam sua vida e a cara do mundo em que vivemos hoje. Em On The Road, Keourac inaugurou sua prosa espontânea, influenciada pelos beats do jazz e pela escrita automática dos surrealistas. Inventou algo estranho demais para o seu tempo e pagou caro por isso.

O livro demorou sete anos para ser publicado e lançou ao estrelato da literatura americana um Kerouac já cansado de tantas baladas, desencantos e confusões. No contra fluxo do reconhecimento público, foi consumido pela fama repentina que On the Road lhe proporcionou e, ao mesmo tempo, pelas críticas e tentativas de ridicularizá-lo. Figurinha difícil e estranha para os olhos da classe média, Kerouac foi amargando uma decadência pessoal que misturou muito álcool, holofotes, conservadorismo político e algum budismo por tabela. Inaugurou uma trilha poética que mais tarde, para desgosto próprio, seria trilhada por milhares de jovens entusiasmados com a contracultura.

Para a garotada de hoje Kurt Cobain talvez seja o exemplo mais próximo, mas é a trilha de hippies, punks e outros tantos. Faz 30 anos que Jack Kerouac, em função de sua vida atormentada e de seus excessos alcoólicos, abandonou este planeta. Tinha 47 anos em 21 de outubro de 1969, dia de sua morte, e deixou um legado literário estimado hoje em U$10 milhões. Como convém à maioria das sagas americanas, sua herança hoje é disputada ferreamente nos tribunais de justiça. Coisa para advogados e gente menos ligada às letras. Para nós, filhote da contracultura felizmente deixou bons livros e uma personalidade contraditória e enigmática o suficiente para servir de referência ao que mais tarde viria a ser a Pop Art. Salvou-nos do tédio e do bom-mocismo, ainda que muita gente até hoje não o perdoe por isso.

Jack Kerouac, como tantos outros escritores, foi um anjo bêbado que, além de sua obra, inspirou uma infinidade de canções, livros, filmes, atitudes e tributos ao seu postulado criativo. Que descanse em paz o grande escritor jovem e poeta das estradas. Ele está no meio de nós.

Artigo publicado no jornal Zero Hora em 23 de outubro de 1999

Uma observação. Enquanto muitos exaltam ídolos malditos como Buckowski, Cobain, Morrison e outros ébrios que nada mais deixaram que uma obra menor, popular pelos excessos que gostaríamos de cometer tal qual retrataram nos seus textos e músicas respectivamente, a geração beatnick trouxe uma experiência superior, intensa e real.

É uma classe superior de mortalidade, melhor, não pela qualidade do que foi escrito, mas justamente por ter se baseado em experiências reais de abnegação material e dedicação física aos princípios desta geração que nada mais fez que dedicar com fervor a vida real, mesmo nas viagens mais lisérgicas empreendidas na longa estrada americana.

Kerouak foi um empreendedor do pensamento norte americano como muitos que o sucederam. On the Road é a sua obra mais conhecida, talvez a melhor, mas nem por isso todo o resto do seus textos fica muito atrás.

Recomendo Vagabundos Iluminados, baseado em anotações instantâneas de alguns sonhos que ele pôde se lembrar segundos depois de desperto. Uma leitora confusa algumas vezes, mas bem clara quando nos entregamos ao personagem levar para um mundo diferente, mas tão diferente que parece mesmo um sonho.

No fim das contas são lembranças.

http://fuckyeahbeatniks.tumblr.com

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