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a ditadura silenciosa dos nossos sentidos, digo, deste outro mundo onde você pensa que está vivendo só não é maior que o calor dessa cidade

Passear na praia Vermelha remete muitas lembranças a minha mente. Engraçado que noventa por cento dessas lembranças não são minhas, mas de bravos estudantes que formaram ali a última turma do prédio de Medicina de 1969. A Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro foi criada pelo príncipe regente D. João, por Carta Régia, assinada em 5 de novembro de 1808, com o nome de Escola de Anatomia, Medicina e Cirurgia e instalada no Hospital Militar do Morro do Castelo. Até então a filosofia colonial dificultava o ensino superior no Brasil, por considerá-lo ameaça aos interesses da corte. Os médicos na colonia restringiam-se a uns poucos brasileiros graduados na Europa e a raros europeus que aqui vinham exercer a sua profissão.

Em 1º de abril de 1813, por projeto de Manuel Luís Alvares de Carvalho, foi fundada a Academia Médico-Cirúrgica no Rio de Janeiro. Mesmo após criada a Academia, apenas em 29 de setembro de 1826, por Decreto-Lei de Dom Pedro I, foi autorizada a emissão de diplomas e certificados para os médicos que faziam o curso no Brasil. Em 3 de outubro de 1832, durante a Regência Trina, foi sancionada a Lei que transformava as Academias Médico-Cirúrgicas do Rio de Janeiro e Salvador em Escolas ou Faculdades de Medicina. Dom Pedro I passa as mãos do diretor da Faculdade de Medicina, Dr. Vicente Navarro de Andrade (Barão de Inhomirim) o Decreto-Lei que autorizava as escolas brasileiras a formar cirurgiões e médicos, assim como a expedirem diplomas e certificados.

Em 1856, a Faculdade de Medicina foi transferida para o prédio do Recolhimento das Órfãs, na Rua Santa Luzia, ao lado da Santa Casa de Misericórdia. Em 12 de outubro de 1918, foi inaugurado o seu prédio próprio, na Praia Vermelha. Depois da mudança, o prédio do Recolhimento das Órfãs, que a abrigou por quase um século, passou a chamar-se Instituto Anatômico, onde algumas disciplinas do curso médico funcionaram até a década de 60.

A Faculdade de Medicina funcionou como escola isolada até 7 de setembro de 1920, quando foi criada, por Decreto, a Universidade do Rio de Janeiro. Em 1937, com a criação da Universidade do Brasil, passa a se chamar Faculdade Nacional de Medicina. Em 1965, a Universidade do Brasil passou a ser denominada Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, em 1973, foi determinada a transferência da Faculdade de Medicina, ainda localizada na Praia Vermelha, para o Campus da Cidade Universitária, na Ilha do Fundão, onde se encontra atualmente.

Por força da Lei da Reforma Universitária, a Faculdade de Medicina dividiu-se em várias localizações. O gabinete da direção está localizado no Bloco K do Edifício do Centro de Ciência da Saúde (CCS), na Cidade Universitária.
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Em 1975 o prédio da Faculdade Nacional de Medicina, inaugurado em 1918, foi demolido por força do arbítrio do Regime Militar (Governo Médici).

Situado historicamente os fatos, vamos voltar ao um outro período menos geográfico e mais histórico da questão.

Numa madrugada covarde em 23 de setembro de 1966, forças policiais do regime militar espancaram cruelmente jovens estudantes que haviam se abrigado no antigo prédio da Faculdade Nacional de Medicina, no campus da Praia Vermelha, e depredaram suas instalações. O episódio ficou conhecido como o “Massacre da Praia Vermelha” e precedeu outros ainda mais graves contra os que, naqueles anos sombrios – mas apesar disso, plenos de esperanças -, ousaram se rebelar em defesa da autonomia da universidade e em favor de uma sociedade e uma nação solidárias.

Nesta invasão pelas forças da ditadura, seiscentos estudantes foram agredidos e as forças militares depredaram o próprio patrimônio público. Foi de fato um capítulo exemplar do vigor e da importância do movimento estudantil. Além das muito conhecidas e fartamente documentadas arbitrariedades perpetradas pela ditadura, como a censura e tortura, um fator que agitava a academia, em meados dos anos sessenta, era a iminente reforma universitária.

Naquela época, 1966, a modernização da universidade brasileira era uma necessidade. O governo não avançava nesta questão por conta da influência marxista que afrontava as diretrizes daquele tempo de repressão, cerceando a liberdade de expressão, mesmo no meio universitário. Este engajamento “subversivo” contra qualquer influência americana era nocivo à situação e haviam constantes embates pela ampliação da representação discente nos colegiados, pela autonomia universitária e pelo fim da cobrança de anuidades – que foi estabelecida pela Lei Suplicy de Lacerda.

De madrugada, entre 2h e 3h, os policiais invadiram o prédio. Embora as pessoas tenham sido autorizadas a sair, o caminho para fora das instalações era um corredor polonês. A borrachada já comia solta naqueles tempos, e quem foi para casa só soube mais tarde pelo noticiário o que aconteceu.

O dia ficou marcado como o Massacre da Praia Vermelha e deve ser lembrado como um “evento símbolo que evidencia a importância do movimento estudantil na luta pela democracia e pela autonomia universitária.

Os atos de bravura de uma juventude acostumada a respirar liberdade e que se via subitamente sufocada pelas forças mantendedoras da ordem hoje são um reflexo de uma juventude do século passado que lutou de verdade pelo fim das desiguldades e de um futuro para seus filhos.

Com este pano de fundo cortamos para muitos anos depois onde aquela turma de faculdade de 1969 se deleita numa praia em Angra com seus filhos, esposas, maridos e até netos. Desde o fim daqueles dias, eles se encontram anualmente para confraternizar a vida. Aquela noite pouco ou não é mais comentada nas rodinhas. As preocupações são outras agora. O futuro é uma estrada curta para muitos de nós e para eles vale cada segundo. Nada mais justo que aproveitar estes tempos prósperos com a alegria de ter perto das pessoas que ama e aprendeu um dos ofícios mais nobres que a raça humana já fez: curar.

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Memorial aos 30 anos de formatura da Faculdade Nacional de Medicina, misteriosamente demolido pela Prefeitura do Rio De Janeiro. Implantado de frente a Faculdade, Av. Pasteur, acabou sendo misteriosamente demolido sem qualquer explicação. Não só o pedestal foi destruído, mas a placa está desaparecida. Em que ano foi isso? Acredito que tenha sido em 2008. Sim, não foi durante a ditadura.

A propósito, esta é a turma do meu pai de faculdade. Ganha bônus para quem descobrir quem é meu velho na imagem.
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E depois vem uma turma engajada em trazer de volta os militares ao poder. Isso não é mais grave do que (re)eleger um governo déspota e populista como o que estamos agora. Para falar a verdade, desde que o Partido dos Trabalhadores subiu ao poder a relação de opressor e oprimido mudou apenas de máscara. O velho general que gostava mais dos seus cavalos do que gente tem outro nome agora e continua não gostando de gente, ou pelo menos finge que gosta.

Se um Bolsonaro incomoda muita gente hoje, milhares de partidários deste governo vigente incomodam muito mais. Acreditar que exercemos a democracia plena hoje é uma grande ilusão. Somente porque todo mundo pode comer carne uma vez por semana sem isso afetar drasticamente seu orçamento e mudar de carro a cada cinco anos não configura o exercício pleno de uma sociedade próspera. Os níveis de analfabetismo, qualidade decrépita da saúde – a ponto de exportarmos cubanos – em todo país e a violência das ruas tanto nas grandes cidades como em pequenos municípios é o recado silencioso e mortal a que estamos sujeitos.

E o que fazer para mudar isso? “Pense bem nas próximas eleições…” Não pense. Cobre das autoridades. A responsabilidade é do cidadão. Ele precisa exercer seu direito. Porém, a gente sabe bem o que acontece quando o povo vai na rua, mesmo que sejam por apenas vinte centavos? Não lembra? Pois é, a gente tem memória curta. A imagem abaixo resume bem aqueles dias de julho.
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E para não nos estendermos mais ao assunto um diálogo pra pensarmos sobre a nossa Justiça e o que devemos fazer com ela:
– Algo mais a acrescentar?
– Sim meritíssimo, vai à merda.

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